domingo, 22 de maio de 2011

A Marcha da Palavra

Linda viagem. No dia 7 de maio, da praça da Estação, subimos a avenida Amazonas, torneamos a praça Sete, marchamos pela avenida Afonso Pena (com paradinha na prefeitura) e seguimos pela avenida João Pinheiro, para finalmente encontrarmos a praça da Liberdade, o palácio da Liberdade, qualquer liberdade, enfim, que nos permitisse a lei e a ordem.

Ao lado de minha filha Ariel (do alto dos seus 15 maduros anos) e um mar de manifestantes tão belos e bravos quanto ela, eu estava ali para protestar contra uma lei que, para muitos de nós, muito tem de errada. Mas os brados que se ouviam na marcha soavam alucinados, e isso nada tinha a ver com o estado alterado dos marchadores. Ouviam-se palavras absurdas, como "pamonha", "pamonheiro", "vegetariano", "manjericão".

Loucos nós, manifestantes? Não, louca a Justiça, que proíbe o próprio ato de manifestar; proíbe, em vez do crime, o uso da palavra, criminaliza o usuário de palavras. Porque o crime, esse vai muito bem, obrigado, vicejando como nunca no terreno fértil da violência urbana, social e regado diariamente por uma legislação - penso eu, e se é que isso se pode dizer - contrária à vida, à saúde e à paz.

Substâncias psicoativas - as que agem no sistema nervoso central - há várias, com os mais diversos usos para o bem e para o mal. Veja a cafeína. Ou os antidepressivos. Ou os anestésicos. Aquela encontrada na pamonha (sabe o que é pamonha?), erva usada há milênios, tem aplicações terapêuticas importantes e comprovadas.

A planta é usada na indústria têxtil (as velas das naus de Cabral) e em rituais de diversas religiões há tempos e mundo afora.

É claro, também é usada como fazedora de alegria. É aí que reside o mal? O álcool, em suas variadas e industrializadas formas, fonte de tanto sofrimento físico, emocional, é vendido sem a menor cerimônia. O cigarro também. Armas de fogo são glamourizadas no cinema e na mídia. Delas se fala a toda hora. Automóveis tomam o espaço das pessoas nas vias, aleijam, matam cotidianamente, e deles falamos até com orgulho.

O que há de violência no manjericão (sabe, o manjericão?) é a própria violência. O tráfico, a repressão, as relações espúrias e doentias que são alimentadas em torno da existência mesma do crime. É como nos amores proibidos: a proibição não acaba com o amor (por vezes até aumenta), mas quanta dor evitaríamos permitindo amar.

O grito pamonheiro não incita ao vegetarianismo. O crime é desrespeitar a lei. Mas dizer-se contrário à lei não pode ser considerado apologia do crime, e muito menos um crime. O uso da palavra (se não do manjericão) deveria ser um direito acima dos direitos.

Leis melhores há por aí. No artigo final dos estatutos redigidos por um poeta amazonense, lemos: "Fica proibido o uso da palavra liberdade,/ a qual será suprimida dos dicionários/ e do pântano enganoso das bocas".

Se não se pode vivê-la, para que serve a liberdade? E, o mais terrível, a quem isso serve?

Fonte: O Tempo

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