sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Papo Cabeça :: Eu fumo

Essa matéria foi escrita originalmente na revista época de 2001, mas ela se encaixa muito bem aos tempos atuais, ja que foi feito muito pouco em prol da maconha. Temos que destacar a decisão do STF sobre a liberação da marcha da maconha e os esforços de alguns sites e pessoas como André Barros, Renato Cinco e o Sérgio Vidal que  escreveu um livro sobre cultivo caseiro.

Enquanto civilizações mais avançadas e até mesmo governos mais conservadores já estão abrindo as portas para a utilização da maconha, sendo nas áreas recreativas, medicinais e industriais, os nossos aqui ainda estao com o pé atrás, mas como tudo aqui no Brasil é meio enrolado vamos esperar e torcer para dias melhores. Não podemos perder a esperança de lutar pelo nossos direitos.


Empresários, médicos, advogados, profissionais e artistas assumem o uso de maconha

Beto Lago, de 32 anos, empresário
"Há anos, fumo baseado misturado com tabaco normal. Comando o Mercado Mundo MIX em 14 cidades – um negócio que dá 3.500 empregos indiretos por mês –, coordeno uma revista, faço projetos de marketing. É uma rotina estafante e preciso de algo que me relaxe. Não bebo. A maconha me dá tranqüilidade. Fumo na frente da minha mãe, que já entende que não é algo do outro mundo."


Pedro Aguiar Angeli, de 21 anos, cartunista e músico
"Experimentei aos 11 anos, com um primo. Quando meus pais souberam, levei um sermão. Achei bom, é importante ter alguém para deixar a gente ciente de que há perigo. E o grande perigo é o exagero. Fumei apenas uma vez com meu pai, na casa de um amigo dele. Foi estranho. Imagine todo mundo fumando numa casa, é desordem, é desrespeito. Não acho que a maconha deva ser totalmente legalizada, mas descriminalizada. Maconha é apenas algo para se sentir bem.
"

Angeli, de 45 anos, cartunista
"Fumo desde os 12 anos e acho que os meninos de hoje que fumam devem abrir para os pais, mesmo que a reação seja contrária. É mais fácil lidar com a verdade. Com meu pai foi assim. Ele ainda acha que é coisa do diabo, mas quando descobriu soube que eu tinha cacife para entrar e sair. Com meus filhos é tranqüilo. Converso com eles, conto histórias de amigos que se deram mal. Eu nunca quis parar, só quis me educar para usar de maneira limpa e prazerosa. Maconha é apenas para relaxar."


A erva maldita está se transformando em erva de charme. Como ocorre com tudo o que se tem por hábito catalogar no campo dos costumes, trata-se de uma daquelas mudanças que têm explicação difícil e acontecem de modo gradual, até que saltam diante dos olhos com a força da luz do sol. Mas basta olhar ao redor para perceber que, de uns tempos para cá, o uso da maconha vem saindo da cortina de fumaça por onde costumava se mover. O baseado – ou beck, ralf, mingote, jererê, conforme se chama por região do país ou mesmo geração – está na boca do povo. Na televisão, é zapear pelos canais para encontrar referências ou debates sobre o tema em foros, documentários de TV a cabo, canais segmentados como MTV ou quadros do Fantástico. No cinema, filmes como o brasileiro Bicho de 7 Cabeças ou o inglês O Barato de Grace ajudam a acender, pelo país afora, a polêmica que ronda o assunto. Nas bancas, revistas científicas, como Galileu, ou focadas no público jovem, como Trip, esgotam a tiragem ao dedicar páginas à discussão médica e jurídica que envolve a droga.

Patrícia Gomes, de 42 anos, dona da grife Armazen Brasil
"O baseado é meu chá das 5, para o cair da tarde. Fumo desde os 18 anos, nunca parei de trabalhar e jamais escondi isso de meus filhos – um de 23 anos e outro de 17. Ambos não gostam de fumar. Eles nunca me viram chacoalhando um copo de bebida com gelo, caída no sofá. Acordo todos os dias às 6h30, caminho e sou uma mulher realizada como mãe e na profissão. É preciso acabar com essa idéia de que todo mundo que fuma é sujo, bandido e leniente."


Otto Maximiliano, de 33 anos, músico
"Aos 15 anos fumei meu primeiro cigarro de maconha nas escadarias da Igreja do Alto da Sé, em Olinda. Cheguei em casa e disse para minha mãe. Ela nunca reprimiu, por isso jamais me senti um viciado, um bandido. Já fumei mais. Agora uso a maconha para coroar momentos de felicidade. Mas também gosto de fumar com meu sogro, enquanto conversamos sobre a vida. Minha mulher não fuma. Espero que para meu filho a maconha não seja uma droga proibida."

Jairo Jordão Arcoverde, de 61 anos, artista plástico, sogro de Otto
"Comecei a fumar no final da década de 50. Naquele tempo, era coisa de marginal. Mais tarde entrou na moda. Nunca parei de fumar. Fumo todos os dias, em geral em meu ateliê, antes de pintar. Tenho cinco filhos, que sabem que fumo. Mas eu não os incentivo, assim como espero que não fumem cigarro e não bebam em excesso. Jamais tive problemas de saúde por isso, mas sei que maconha pode viciar. Só acredito que cabe a cada um decidir se quer usar."


A liberação da marcha do STF são importantes porque podem, aos poucos, invadir as delegacias. É nelas que, no fim das contas, se decide o destino dos que são encontrados com a erva. Cabe aos delegados decidir se enquadram alguém como traficante ou usuário. ÉPOCA falou com cinco titulares de distritos movimentados do Estado de São Paulo, três do Recife, dois de Salvador e dois de Curitiba. Entre eles, os critérios usados para tipificar os crimes são variáveis. Dependem do histórico da pessoa presa, da circunstância em que ela foi pega – e até mesmo dos humores gerais. Ou seja: os usuários acabam reféns das decisões dos delegados, que nem sempre primam pelo bom senso e muitas vezes são notórios pelos baixos instintos. Há alguns meses, por exemplo, o Sativa Lover foi preso por ter uma pequena plantação em casa. E o pior é que ele continua preso.

Em toda família de classe média em que um adolescente foi apanhado com cigarro de maconha já se viveu pelo menos uma situação vexaminosa – a do achaque para liberar o garoto e sumir com o boletim de ocorrência. Casos desse tipo ocorrem aos montes com jovens pobres. Um deles, cantor de rap do Capão Redondo, cinturão de violência na Zona Sul de São Paulo, foi preso aos 19 anos, também por porte. Ficou quatro dias na cadeia, onde conheceu ladrões da região. Dois meses depois, estava roubando computadores na Zona Oeste da cidade.

A coleção de iniciativas recentes – à luz da lei e da administração pública – é ancorada em uma evidência que se pode até definir como epidemiológica: nunca se fumou tanta maconha. Relatório da ONU estima que há pelo menos 144 milhões de usuários da Cannabis sativa ao redor do mundo. No Brasil, a organização aponta um crescimento do consumo de 2,8% para 7,6%, no período de 1987 a 1997, apenas entre jovens de 10 – isso mesmo, 10 – a 19 anos. É um daqueles campos em que não é preciso apelar para tabulações numéricas para perceber o aumento do uso da droga. A novidade é que, aos poucos, se percebe também que os usuários estão dispostos a falar sobre suas preferências. Se há alguma notícia boa em relação às drogas, essa é uma delas.

Matéria retirada da Revista Época, e adaptada pela a equipe do Cabeça Feita.

Fonte: Cabeça Feita

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